sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mentiras

Mente a aparente brisa que te cinge...
revoluções em silêncio
se trancafiam em teu peito...

e a vida
percorres por trilhos estreitos
maquiando teus ferimentos
e tendo o chão qual baliza...

e à guisa
de um ser mortal sofredor
que sofre de mal de amor,
na dor que, bem, te repisa...


Rupturas

  
Guardaremos na memória o que um dia foi afeto,
todos abraços e beijos que não foram consumados,
as respostas das perguntas que ficaram enguiçadas,
toda lenha não queimada e entregue ao desperdício.

Suspensas estarão razões (nossos tetos são de vidro).
Nossas sentenças virão do que ditarem as verdades;
Ainda com fogo na alma e com o coração inciso
engoliremos as mágoas camufladas de sorrisos...

Abandonado o barco e imersos nas mesmas águas,
o que era céu se apagou e o azul se fez escuridão;
ventos vindos em torvelinho destroçaram nossos rastros,
mas sóis ainda brilharão e dias virão em claridade...

É do tempo o ofício da abertura de caminhos,
de trazer à vida o alinho, de novas ocupações;
da remoção dos resquícios pra prescrição das saudades.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Verbal




 
Flexione-se à paixão,
conjugue-se a mim
em primeira pessoa,
singular e plural,
em qualquer tempo
e em qualquer modo.
Pois assim te quero
presente,
em meu passado
e futuro.

Aurora Austral




Madrugada fria, praia deserta,
velas que dormem, 
dançam inquietas com a preamar;
luar minguante, ventos uivantes
quebram o silêncio faz bradar o mar...
Cheiro de sal, de maresia,
ondas ressoam num madrigal;
Céu em nuances, tons em harmonia,
nobre aquarela, dom virginal,
natural tela, luzes em poesia
Noite ou dia? 
Aurora austral.

Entretantos



Sem precisar fosse eterno
te amei com todas as forças possíveis
dos meus mais intensos agoras.
Não me descuidei
nem do que era intocável
nem do secreto e invisível.

De ti, me fiz em emoções:
Sorri, chorei,
mas foi somente por amor...

Não te desprezei,
guardei rogo no amanhã
dum irrevogável querer
em meu coração partido...

Pois quando, em ti,
o silêncio incomodar,
secando o teu mesquinho ser
é que virás a notar
e em meus olhos irás ler
todo o ainda indizível.

domingo, 23 de abril de 2017

Preço, peso e medida


Qual é o peso pra cada medida?
Qual é o preço da vida?

De que vale a luta,
a semente plantada
se não é colhida
tua felicidade?

De que vale a vida,
a árdua labuta,
se tua liberdade
não se consolida?

Relativo é o peso
pra cada medida...
e o preço da vida?
pouco ou nada vale.

Metades

 O certo e o incerto
habitam em mim,
e assim me dividem
em tantas metades.

Sou bom e sou ruim,
sou o bem, sou o mal,
Eu sou singular
também sou plural.

Vezes digo sim,
noutras digo não;
sou, às vezes, emoção,
noutras sou razão.

Ora sou certezas,
ora dubiedades,
sou meio mentira,
sou meio verdade.



Afluência

Desço em torrentes
pelas ribanceiras,
me formo em ribeira,
adiante em rio.

Eu não me desvio
até te encontrar...
as minhas correntes
seguem pro teu mar.

Derramo-me em ti,
sou o teu afluente.
e ao nos misturarmos
somos um, somente.

Ruínas

Crescido à sombra dos bens capitais
cultuando o supérfluo
criou um mundo de sofismo,
fingiu ser feliz com o seu egoísmo.

Inverteu os mais nobres valores da vida,
criou sua filosofia,
mudou de ideologia,
e só defendeu a bandeira do Eu;
até utopias extinguiu...

Já no final da estrada,
em seus derradeiros dias
fez, descontente, um balanço da vida,
seu lucro:
 melancolia,
pobreza da alma
e a ruína moral.


A cor da minha Rosa

Por que se diz cor-de-rosa
se há rosas em outras cores?
Há rosas brancas e amarelas,
rosas vermelhas também...

Minha Rosa é bem diferente
tem a cor que outra flor não tem
Tem a tez macia e cheirosa,
gostosa como ninguém.

Minha Rosa é minha paixão,
minha vida e o meu amor.
Eu rego-a em meu coração,
minha linda e encantada flor.

Morena é cor da minha Rosa,
marrom que é cor-de-café,
de aroma quente, é fogosa,
com alma e corpo de mulher.

Póstumo

 
Quando cerrarem-se as cortinas em meus olhos,
quero que, aos meus, 
ainda fagulhem vestígios,
mas não que desperte uma razoável devoção 
do limo que criei.

E aos meus desafetos, 
só quero um adeus;
com Deus ou sem deus 
morar em meu esquecimento.
Lá estarão seguros, 
não me incomodarão...

Pro resto do mundo, 
serei o silêncio,
repousarei no espaço...
e de lá 
gestarei idílios 
somente pra mim.


Dia de cão

 
Sinistros, insegurança,
bondes de desolações;
medo com medo do medo;
saques, assaltos, arrastões...
Maus ventos, desassossego,
algazarras, turbilhões
espalha-se o desespero
num Estado sem lei num dia de cão.


O melhor trabalho

O melhor trabalho
é o que nunca cansa,
que, embora pesado,
não lhe faz escravo,
o que se faz com amor,
o que lhe traz o prazer,
onde a sua satisfação
é sua recompensa
e em que o dinheiro
vem por consequência.



Meu leito, teu abraço

Hei de resistir à morte
pra assistir a tua volta.
Pra merecer essa aposta
eu me dispus a ser forte.
Te espero, oh! minha consorte,
recebes o meu corpo lasso...
Morrer deitado em teus braços,
pra mim é a felicidade,
morrem também minhas saudades,
c'o alento do teu abraço.


Triste poesia

A verdade é esta:
Aqui nada presta,
solidão, vazio
num rio de prantos...

E em todos os cantos
um que de sofrer,
só há desencantos,
gélido anoitecer...

Escuros são os dias;
Me vem a saudade,
me infesta a agonia,
corrói-me, molesta.

O que aqui me resta
além do amargor?
Só aparar as arestas,
e estancar minha dor.

Fazer a travessia
esquecer o amor
e às penas compor
uma triste poesia.


Ainda menino (A Carlos Marcos Faustino)

Ainda sou aquele menino que rega de sonhos a esperança;
que estampa o sorriso aberto no rosto, cheio de inocência;
que crê que as pessoas se tornam do bem e grandes de verdade;
que aposta na vida em iguais condições pra toda humanidade.

Sou aquele que vê bem de perto o presente e persegue o futuro;
que traz em seu olhar pequenino e sereno os sentimentos puros;
que busca na vida a vitória de tornar seus sonhos em realidade;
que chora, que sorri e canta às tantas histórias com felicidade.

Também sou o mesmo menino que ainda tem medo do escuro;
carente de colo, carinho e de abraço para que se sinta seguro;
mas, claro, curioso em saber o que existe por detrás do muro.

Sou aquele menino, sem medo, que brinca na roda gigante da vida;
vê que o mundo gira e que nele temos as subidas e as descidas;
que embaixo ou em cima há bonança ou talvez as adversidades;
que essa roda é viva e é o que nos ensina a viver com humildade.

Sou ainda o mesmo menino travesso que cresceu por descuido;
que ainda vê o mundo do adulto, confuso aos tantos absurdos;
que traz a possança em ser sempre criança sem o peso da idade.


Sozinho

 
Recebo o abraço
da minha alma em meu corpo;
gozo de mim mesmo
um balsâmico conforto.
Benfazejo amor
à paz que me acalma
e me traz a luz
como diretriz.

Fechado em mim mesmo
assisto ao exterior
e nada me abala.

E em meu interior
encontro o regaço,
refugo minha dor,
neutralizo as mágoas,
libero o perdão,
desprendo minha alma
e sigo feliz .